terça-feira, 16 de agosto de 2011

A cólera

 O orgulho nos induz a julgar-nos melhores do que somos; a não suportarmos uma comparação que nos possa rebaixar; a nos considerarmos tão acima dos nossos irmãos, quer em espírito, quer em posição social, quer mesmo em vantagens pessoais, que o menor paralelo nos irrita e aborrece. O que sucede então? - nos entregamos á cólera, á raiva.
 Façamos a pesquisa da origem desses acessos de demência passageira que nos assemelham ao bruto, fazendo-nos perder o sangue-frio e a razão; façamos a pesquisa e, quase sempre, depararemos com o orgulho ferido. O que é que nos faz repelir, coléricos, os mais ponderados conselhos, senão o orgulho ferido por uma contradição? Até mesmo as impaciências, que se originam de contrariedades muitas vezes insignificantes, decorrem da importância que cada um liga á sua personalidade, diante da qual entende que todos se devem curvar.
 Em seu frenesi, ou ataque de fúria, o homem a tudo se atira; ataca a natureza bruta, ataca os objetos sem vida, quebrando-os porque não lhe obedecem. Ah! se nesses momentos pudesse ele se observar a sangue-frio, ou teria medo de si próprio, ou bem ridículo se acharia! Imagine ele por aí que impressão produzirá nos outros.
 Se entendesse que a raiva não é remédio, que lhe prejudica a saúde e compromete até a vida, reconheceria ser ele próprio a sua primeira vitima. Mas, outra consideração, sobretudo, deverá conte-lo, a de que torna infelizes todos os que o cercam. Se tem coração, não sentirá remorso fazendo as pessoas que ama sofrerem? E como ficaria sua moral se, num ato de fúria praticasse algo que o faria arrepender-se por toda a sua vida!
 Em resumo, a cólera ou raiva não exclui certas qualidades do coração, mas impede que se faça muito bem e pode levar á pratica de muito mal. Isto deve bastar para induzir o homem a esforçar-se para dominar-se. O espírita, ao demais, é concitado a isso por outro motivo: o de que a cólera é contrária á caridade e á humildade cristãs.

Um espírito protetor, com adaptações.

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